Deslocamentos da Memória

Deslocamentos da Memória
Alexandra Ungern e Heloisa Lodder
Deslocamentos da Memória reúne obras de duas artistas que dialogam com memórias de lugares e objetos que conectam suas histórias pessoais e coletivas, onde deslocamentos obrigatórios e inesperados – como pandemia e guerras, situações que causam perdas, traumas, fragilidades, vulnerabilidades – provocam mudanças nos indivíduos e no ambiente a sua volta.
A memória é uma capacidade de nosso intelecto de recordar dados e acontecimentos reais ou imaginados. Os trabalhos aqui apresentados visam nos aguçar essa capacidade por meio de imagens, objetos, vídeos e instalações.
Heloisa Lodder recolhe vestígios do espaço urbano, deslocados da cidade para desnaturalizar o olhar. As ruínas da cidade e a própria ruína humana são assunto da investigação no constante percurso pela cidade. A artista explora construções em processo de demolição, testemunhas de um tempo rápido que nos torna obsoletos, através de fotografia, instalação, vídeo arte e objetos.
Alexandra Ungern estabelece conexões entre a história de sua família- que migrou da Hungria para o Brasil após a Segunda Guerra – e as dificuldades de qualquer imigrante ou refugiado- seja uma pessoa que se desloca de um país a outro, de uma cidade a outra ou de um local de moradia a outra. Podemos pensar essas mudanças como movimentos involuntários, que acontecem por uma necessidade vital de sobrevivência. A pesquisa de Alexandra vai além de uma descendência específica, faz referência a ambientes que sugerem que algo mais já esteve lá. Cicatrizes de um tempo que ficou congelado na marca em construções, como casas ou objetos, fotografias que são guardados como relíquias.
Embora as obras de Alexandra Ungern e Heloisa Lodder se baseiem em histórias pessoais, elas também englobam o conceito de memória coletiva, já que fazem referência a vários aspectos relacionados ao nosso mundo atual, os quais vivenciamos diariamente. Por esta razão, quando nos deparamos com vários trabalhos dessas artistas, nos lembramos de fatos tanto de nossas vidas pessoais, quanto de imagens que vemos na televisão como desabamentos, enchentes, guerras. Todos esses fatos ficam em nossa memória e, cada um de nós é afetado por eles de maneira diferente.
As obras aqui apresentadas nos levam a refletir sobre questões reais e existenciais. Enquanto Ungern resgata objetos e fotografias de seus ancestrais, que fugiram de uma Europa devastada por duas guerras na primeira metade do século XX, Lodder documenta e coleta objetos e imagens recolhidos em meio a destruição de casas e bairros históricos de São Paulo, onde nasceu e cresceu.
Ambas as artistas pertencem a uma geração que busca resgatar memórias de seus ancestrais, que perderam tudo entre mudanças de países, recomeçando suas vidas no Brasil, à exemplo da história guardada neste Museu.
O crescimento exacerbado e destrutivo de São Paulo, onde cresceram e vivem, vem apagando e reconstruindo a história da cidade desde sua formação. Rios e afluentes que inundavam várias áreas, formando charcos e cerrados com diferentes espécies de plantas e animais estão submersos em avenidas. Residências e bairros inteiros construídos na primeira metade do século XX estão sendo sistematicamente substituídos por edifícios de arquitetura eclética e gosto duvidoso, que nos leva a questionar o projeto de adensamento da cidade. Somos deslocados de nossa história e de nossas memórias diariamente.
A série Tridimensionalidade da Memória, de Heloisa Lodder, imagens realizadas a partir do empilhamento de partes retiradas de demolições de casas antigas, entre azulejos, pedaços de paredes — detalhes arquitetônicos feitos com muito cuidado por artesãos antigos e hoje descartados sem dó nem piedade, nos fazem refletir sobre o apagamento da arquitetura e histórias que fazem parte de São Paulo e de outras tantas cidades pelo Brasil. Memórias que se vão e que dão lugar a novos edifícios, outras histórias.
Eu Adorava Esse Tempo, de Alexandra Ungern, é construída por fotografias antigas da coleção de sua avó impressas sobre toalhinhas antigas em cianotipia (processo de impressão fotográfica em tons de azul, descoberto pela fotógrafa e botânica inglesa Anna Atkins, em 1842). A obra, cujo barrado em crochê é feito pela mãe da artista, nos enche de nostalgia de um tempo que não voltará jamais, assim como o tempo das casas demolidas cujos pequenos pedaços são recolhidos por Heloisa, em uma tentativa de resgatar e guardar um tempo que não voltará mais. Muito próxima de sua avó, Alexandra ouvia seus relatos sobre a época em que vivia na Hungria, ainda criança e em meio a guerra que logo assolou seu país, levando sua família a mudar-se para o Brasil. Eu adorava esse tempo era uma frase que a avó sempre dizia quando via as imagens de sua infância. A artista, então, decidiu gravar essas conversas com sua avó e, delas, nasceu um livro sobre essas histórias. Muitos dos trabalhos realizados por Ungern, aqui apresentados, a resgatam imagens da família colecionadas por sua avó. Carregando Memórias consiste em várias dessas imagens instaladas em pequenas caixas que nos remetem às malas utilizadas para viagens em tempos antigos, aludindo aos europeus que atravessaram o Oceano Atlântico em busca de uma nova vida.
A instalação Tombamento de Alexandra é composta por fotografias de casas e prédios onde a artista “apaga” uma determinada fachada ou empena — sugerindo o tombamento do edifício, que certamente será demolido para um futuro empreendimento. Já a série Silhuetas, plantas dos mesmos edifícios, é construída com linhas pregadas diretamente na parede, numa alusão ao método utilizado para alinhar paredes de tijolos.
As impressionantes fotografias de Heloisa Lodder registram entranhas de casas que estão sendo destruídas em São Paulo pela especulação imobiliária, responsável pelo apagamento da história arquitetônica e de muitas famílias que habitavam esses locais. As poéticas imagens de interiores de casas semidestruídas, a exemplo de A Última Leitura Na Sala de Veludo Azul, somam-se instalações com materiais resgatados pela própria artista, notável em Inventário. Memórias de uma família que a artista não conheceu. Importante notar que este trabalho abrange escultura, performance e fotografia, uma vez que Heloisa escavou a parede de uma antiga sala, leu um trecho de um livro aleatório para si mesma e o inseriu na parede da casa que foi totalmente demolida no dia seguinte. Esta imagem que nos conta muitas histórias…
Inventário revela o desejo de Heloisa na preservação de fragmentos arquitetônicos, catalogando-os como se pertencessem a um projeto de arqueologia a ser preservado em um museu. Desta forma, a artista resgata a importância e dignidade desses antigos objetos, dando a eles um novo contexto e a possibilidade de ser tornarem parte de uma coleção, não de arqueologia, mas de arte contemporânea.
Já a série Entre Laços de Alexandra, que engloba a grande mesa central e as louças envolvidas por tecidos, foi realizada a partir de objetos de família ou encontrados em feiras de antiguidade e nos fazem recordar dos almoços e cafés nas casas de sua avó, imigrante da Europa, à exemplo de vários brasileiros.
Esta exposição apresenta, também, dois vídeos de Heloisa: Ampulla e (re)construções, que nos falam sobre o tempo e a instabilidade.
Nossa mente guarda episódios que vivenciamos, mas também é capaz de imaginá-los. A arte, de uma forma geral, é o meio pelo qual expressamos essas memórias, tanto vivenciadas, quanto imaginadas. Se a arquitetura, a literatura, a fotografia, o cinema, o teatro e as artes visuais não existissem, teríamos que viver apenas da memória de histórias e lendas que nos fossem contadas de geração em geração e, com o tempo, elas mudariam, se perdendo na névoa do esquecimento, como acontece com os personagens do lindo livro O Gigante Enterrado, do escritor Kazuo Ishiguro.
Rejane Cintrão
Abril 2025
Sobre as artistas:
Alexandra Ungern nasceu em Recife-PE (1967), vive em São Paulo desde a infância onde trabalha atualmente. Formação: Bacharelado em culturas visuais pela Universidade Webster Viena – Áustria (2011), Escola Panamericana de Artes SP, artes visuais 2004. Participou de seminários com Carlos Fajardo e Artur Lescher; orientação de projetos com os artistas Nino Cais, Carla Chaim; grupo de poéticas visuais com curador e crítico Paulo Gallina; escrita na arte com curador Shannon Botelho; Fala de Artista com Magnolia Costa e Ana Velar. Participou de mostras nacionais e internacionais: Projeto Vitrines, metro Trianon-MASP(curadoria Regina Silveira); Museus MAB-SC, MUNA-MG, MAG-GO, MUBE SC; Contraprova II- Paço das Artes, SP; Reflexão, Dialogart – Viena; 25o Salão de Praia Grande, SP; Galeria Tato (individual: Laços, curadoria Claudinei Roberto da Silva), SP; Savaria Múzeum, Szombathelyi, Hungria; 16o Salão Nacional de Artes de Jataí, GO, 1o Salão Online Galeria IBEU; Edital de ocupação das galerias de Itajaí, SC, 50o Salão Luiz Sacilotto – SP; 48o SARP Salão de Artes no MARP Ribeirão Preto – SP; Galeria Imaginário, Buenos Aires- AR, Casa Contemporânea, (individual) Tramas que o Tempo não Desfia, curadoria Marcelo Salles 2024; Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, SP, curadoria Claudinei Roberto da Silva, coletiva: As vidas da Natureza Morta, 2024; Museu Nogueira da Silva , 2024, Braga PT, Casa da Cidadania e da Língua, 2025 , Coimbra PT; . Prêmios: edital Galeria Fernanda Milani – Teatro Polytheama, Jundiaí – SP; 10o. Salão de Arte Contemporânea de Marilia – Galeria M. De Artes – SP; residências artísticas: Proyecto Ace online-Argentina; 2019 W Residência artística, Ribeirão Preto – SP; 2016 D’Clinic Residência Artística, Zalaegerszeg, Hungria; 2024 RAMA Residência Editorial.
https://alexandraungern.com| @aleungern
Heloisa Lodder (São Paulo-SP, 1969), atua como artista visual. É graduada em desenho gráfico pela Universidade Mackenzie de São Paulo, e certificada em Multimídia Web Design na Califórnia-USA – Center For Electronic Arts. Frequentou grupos de estudos e pesquisa para artistas, onde foi orientada por Rejane Cintrão, Carolina Mikoszewski, Julia Lima e Bru Novaes, Carolina Paes, Julie Belfer, Katia Salvany, Paulo Gallina, Nino Cais e Carla Chaim, Renato de Cara.
Iniciou sua trajetória por meio da fotografia em 2018, sendo selecionada para exposições no European Month of Photography-EMOP Berlin, Alemanha, e no Festival Les Rencontres d’Arles_— França (LensCulture). Foi indicada ao Prêmio Aquisição Museu de Fotografia de Fortaleza na Leitura de Portfólio Internacional no FestFoto-POA 2019. Em 2020 recebeu três prêmios internacionais no Minimalist Photography Awards. Em 2022 foi selecionada: 19° Programa Exposições do MARP-RP; Residência Artística ED. Vera#3-SP; MAB Museu de Arte de Blumenau-SC; 47° SARP Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional-Contemporâneo MARP-RP (prêmio aquisição com duas obras). Em 2023 fez sua primeira individual Breve Lançamento, no MARP Museu de Arte de Ribeirão Preto; foi selecionada para o II Festival Lux de Performance SP/SP e Residência Arte Serrinha-SP. Itinerou o projeto Deslocamentos da Memória em parceria com a artista Alexandra Ungern, nos museus Memorial Getúlio Vargas-RIO, MuNa-MG e MAB-SC. Em 2024 destacam-se as mostras coletivas Hecho en Brasil em Buenos Aires-AR, e Trinta Anos de FirmaCASA em São Paulo.
Possui obras em coleções particulares e acervos públicos: MARP; IMS-SP; AR Acervo Rotativo.
@Heloisa_Lodder
Lista Obras:
Alexandra Ungern
1.série Entre-laços, 2024
Tecido antigo, prato e linha de bordado, instalação com dimensões variáveis (na parede)
2. Banquinho da vovó, serie Entre-laços, 2024
Tecido antigo, banquinho e linha de bordado, 31 X 76 X 23,5 cm (sobre uma base baixa)
3. Eu adorava esse tempo, 2021
Cianotipia, serigrafia e bordado (em pareceria com a mãe) sobre toalhinhas antigas, dimensões variáveis (parede)
4. Carregando memórias, 2020
Fotografia sobre objetos encontrados (papel e alumínio), dimensões variáveis (parede)
5. e 6. Serie O lugar se tornou inseguro, 2024
Adesivos de vinil de recorte sobre parede a partir de desenhos da artista, dimensões variáveis
7. O lugar se tornou inseguro, 2024
Faixas de tecido com textos em acrílica e costura, dimensões variadas (pendurados no teto)
8. Sem título, série Tombamento, 2029
Recorte em impressão fotográfica sobre papel, instalação com vários trabalhos, dimensões variáveis
9. e 10. Serie Tombamentos, 2019
Pregos e linha sobre parede, 205 X240 X 2 cm
Pregos e linha sobre parede, 173 X 95 X 2 cm
11. Sem Título (Mesa), serie Entre-Laços, toalha de mesa bordada “macramê”, porcelana, linha de bordado 220x125x13cm
Heloisa Lodder
1.Breve Lançamento, 2023
Série de 3 fotografias, impressão em pigmento mineral sobre papel algodão, 110 X 160 cm cada (montagem: sarrafo de madeira e pregos de aço) (parede)
2. Breviário II, 2022
tijolos remanescentes de antiga fábrica demolida e parafusos instalação 130 x 150 x 10cm (parede)
3. Inventário, 2023, objetos pessoais e coletados de casas demolidas, dimensões variáveis (parede)
4.Tridimensionalidade da memória, 2020
Impressão em pigmento mineral sobre papel algodão, 30 X 30 cada (tríptico), montagem em moldura de madeira e vidro. (parede)
5.Última Leitura na Sala de Veludo Azul, 2022
Fotografia de ação/intervenção sobre parede em casa em demolição, impressão pigmento mineral sobre papel algodão, 85,5 X 160 cm (pendurado com fios na grade do teto)
6.Domus, 2022
Instalação com tijolos de casas demolidas e porta-retratos de família com fotografia invertida
7.Ampulla, 2020
Vídeo performance no ateliê da artista, HD vídeo, 16:3, cor, 8,12”
A ser instalado dentro de uma caixa pendurada na parede com um orifício para o espectador ver
8. (re) construções, 2023
Vídeo performance, 16:9, cor, som, 8’41” (TV fornecida pela artista)
9. Inventário II, 2024
Instalação com tijolos remanescentes de antiga fábrica demolida | instalação 130 x 150 x 10cm (chão)
10. Lux I
Escombro de casa demolida e luz fluorescente, 2022-2025.
0.60 x 110.0 x 0.16 cm
