Arqueologia dos afetos

ARQUEOLOGIA DOS AFETOS
Alexandra Ungern através dos processos que opera e que resultam nas obras apresentadas nessa exposição, investiga e materializa suas impressões sobre o tempo em suas múltiplas dimensões. Existe nesse processo uma prospecção de história, expressa na arqueologia dos objetos e artefatos aqui exibidos e que são eloquentes na narrativa apresentada a partir das operações poéticas a que são submetidos. Essa dimensão do tempo que assim se expressa, comenta ou sugere, uma realidade transitória, mutante, que mensura o tempo naquilo que dele conseguimos apreender a partir das nossas referências, principalmente culturais, já que o tempo é considerado por parâmetros que não são universais, isto é, não corresponde de modo igual nas diferentes civilizações em que ele é considerado.
A poética expressa na materialidade dessas obras não deve ser confundida com mera reminiscência ou elaboração melancólica de um passado remoto, mas, elas engendram, sim, alguns dispositivos para compreensão do presente, já que essas obras afirmam o vínculo da artista com a sensibilidade plástica que validou as estratégias consagradas pela vanguarda europeia do século passado (por exemplo, o ready made de Marcel Duchamp, e a arte povera de Alberto Burri) (artesanato e tecelagem) e que são adotadas e reelaborados nos procedimentos adotados por Ungern.
Ora, a cartografia derivada daí remete-nos a territórios distintos, ao macro espaço abarcado pelos mapas e os panoramas das cidades, aos micros espaços que se apresentam através de indicies da vida doméstica e seus fazeres quase invisíveis. Esse aspecto do trabalho parece ser de especial interesse já que o crochê e a costura foram estigmatizados como “fazeres menores”, “prendas do lar”, atividades atribuídas a uma mulher subalternizada, enclausurada e inferiorizada por uma sociedade machista.
A linha que faz a toalha de mesa ou pia, que constitui a manta, que costura materiais distintos é, talvez, a metáfora do tempo que tudo atravessa e que tudo transforma.
Claudinei Roberto da Silva – Curador